sombra queimada

sombra queimada

___Boa noite Sr. Dosto, é um prazer recebê-lo em nossa companhia novamente. Para nós é uma honra tê-lo como cliente Diamond e gostaria de me colocar a disposição para tonar o seu vôo o mais confortável possível___

Ele rapidamente olhou para o crachá que informava pertencer à Alice Favaro. Não se deu ao menor esforço de tentar disfarçar o escalar de seus olhos por cada detalhe do corpo da comissária. Na sua avaliação rápida, Alice era um espetáculo composta por quadril brasileiro, cintura filipina, seios suecos, olhos franceses e lábios africanos. Ele tinha um enorme orgulho do quanto conhecia, a partir da prática, as predominantes característica femininas espalhadas pelo mundo. 

___Muito obrigado pela recepção, Srta. Alice. Já não estivemos juntos em algum voo recente, ou estou enganado?___

Ele dominava as palavras, os gestos, o navegar de comportamentos, a respiração, e muito mais. Era envolvente e sabia disso. Dominava o flerte com as mulheres da mesma forma que brilhava nas salas de reuniões estreladas que frequentava. Para ele bastavam alguns minutos para gerar aos em sua volta o conforto e satisfação de um gole de água fria quando abraça uma garganta seca. 

Na última semana, quando seu casamento completou oito anos, decidiu que ia se separar. Não porque não amava sua esposa, pois na verdade nunca a havia amado. Não por falta de liberdade, pois ele já havia estruturado o casamento de uma forma a ser livre quando conveniente. Não para conquistar mais dinheiro ou sucesso, pois nesse caso o casamento mais o ajudou do que o atraplhou. O que Dosto queria mesmo era poder se revelar mau.  

Se casou pois sabia que através do potencial sogro seria capaz de escalar um Everest na sua rede de relacionamentos cinco estrelas. José Ferro, o sogro, era Vice-Presidente de um poderoso banco americano que, na virada do século, concentrava em sua cartela de clientes os maiores investimentos de tecnologia e inovação no país. (mais sobre)

Se era fato que o interesse de Dosto era se tornar genro de Ferro, também era fato que Ferro se apaixonou por Dosto muito antes que Sofia, sua filha. Suas conversas sobre mercado, negócios, inovação e todo o jogo por trás desse mundo eram incansáveis e espalhafatosas. Não foram poucas as noites em que, ainda como namorados, Dosto visitava Sofia e a abandonava, sempre com cuidado e sensibilidade, para ir à companhia de Ferro e com ele ficar até altas horas da madrugada. ___ Deixe ele comigo esta noite, filha ___

Mas se Dosto não amava Sofia, isso só ele sabia. O casal era admirado por todos a sua volta seja pela simpatia com a qual se expressavam, pela estética que exuberantemente apresentavam, ou pelo ar jovial que traziam pra todos os cantos. Enquanto a maioria dos casais, após alguns anos de casamento, já seguiam o clichê de reclamações públicas, escassos olhares e beijos em extinção, Sofia e Dosto sempre pareciam acabar de se conhecer. Os beijos, toques, olhares e elogios públicos, eram de deixar qualquer casal congelado de inveja. ___Parece que vocês trepam todas as noites___ comentavam com frequência os mais próximos.  

Alice não conseguiu controlar o escorregar de um pequeno sorriso em seu rosto, mas o fez de forma suave e extremamente contida. ___Pode me chamar de Alice, senhor, sem problemas. Acho que o senhor está certo, também tenho a impressão que voamos juntos recentemente. Faço a rota entre Londres e São Paulo com frequência, imagino que o senhor também___

Ela havia recentemente conseguido o resultado máximo no Cabin Crew Training Program da IATA (International Air Transport Association), o que a havia posicionado muito bem na escala para voos internacionais. Além disso, falava um inglês impecável, adquirido desde a infância graças ao convívio com seu padrasto, um piloto escocês que em uma das vindas ao Brasil se apaixonou por Maria, sua mãe, e nunca mais voltou para sua família no Leith. É fato também que ela aprendeu algumas outras coisas menos glamurosas com Garry das quais não faz muita questão de se recordar. 

Terminaram o diálogo prematuro de forma eloquentemente pretensiosa mas ainda assim profissional. Alice trouxe a Dosto uma taça de Cave Geisse Brut, como ele havia solicitado, e uma combinação de queijos Brie, Parmesão e Prima Dona, grissini de alecrim e uma pequena ampola de geléia de damasco. Ele já estava bem acomodado. Havia reclinado a poltrona de forma com a qual suas pernas ficassem esticadas e confortáveis mas seu tronco permanecesse parcialmente ereto. Havia retirado os sapatos e os guardado de forma apropriada. Havia trocado as meias pretas sociais pelas especiais de voo e também oferecido seu blaser para que Alice o guardasse no closet da cabine. Ainda aguardaria o jantar para trocar de roupas, fazer a higiene bucal e passar seus cremes de rosto.

Quando conheceu Sofia, sua esposa, Dosto trabalhava como gerente em uma empresa de desenvolvimento de software especializada em sistemas financeiros. A parte técnica do trabalho, como humildemente reconhecia, nunca havia sido seu forte, mas sempre foi muito atento a tudo que acontecia e poderia vir a acontecer no mercado de tecnologia. Além disso, tinha uma habilidade em lidar com e liderar pessoas considerada quase que erótica dentro do mundo de tecnologia. 

Logo após o casamento, Ferro o indicou para uma posição de superintendência de tecnologia do banco que era sócio e estava prestes a presidir. Se no início Dosto teve que lidar com muitos olhares que condenavam sua oportuna presença por ali, ele não demorou a conquistar quem precisava ser conquistado.

Foi assim que conheceu Ana, seu segundo caso extra-conjugal. Ana vivia a expectativa de ser promovida ao recém-criado cargo de superintendente de inovação, uma expectativa mais que legítima dado os resultados que havia alcançado recentemente e sua jornada de mais de dez anos na empresa. Ela era reconhecida pelas pessoas da área, navegava de forma plausível na politicagem organizacional, era tecnicamente bem posicionada nos fóruns nacionais e internacionais, e trabalhava algo entre dez e doze horas diárias. Ou seja, estava pronta para o cargo.

Ao saber que o genro de um presidenciável, alguém com currículo duvidoso, assumiria o cargo, Ana decidiu pedir demissão imediatamente. A demissão foi aceita pela sua ex-chefe mas não por Dosto, que arrancou uma conversa com ela antes que a demissão fosse formalizada.

___Vamos ser diretos aqui, Dosto? Você sabe muito bem porque eu pedi demissão, e sabe também a única coisa que poderia me fazer ficar, então não percamos tempo___

___Eu sei o porque você quer sair, mas não sei o que poderia fazê-la ficar___

___Seu cargo, é isso que quero, é isso que mereço___

___Só isso?___

___Como assim “só isso?”.

___Você pediu para sermos diretos aqui, Ana? Pois bem, sejamos direto: em seis meses o cargo é seu, e com um bônus bem maior que o atual, prometo e assino onde quiser. Em seis meses, felizmente, eu não estarei mais nesse cargo___

Foram dois meses para Ana estar na cama com ele e quatro para ele ser promovido a CIO. Ambos formaram uma parceria ferrenha que criava um cenário "intelecsexual" formado por mesas, camas, cadeiras, espelhos, post-its, hidromassagem, computadores, preservativos, powerpoint, lubrificantes…e muito, muito remédio. Foi com Dosto que ela conheceu e se apaixonou pelo mundo dos estimulantes e inibidores.

___Eu, você, Ritalina e Rivotril… a melhor das orgias!___

Dosto já estava acostumado a esse mundo e tinha convicção de que poucos conseguiam equilibrar caos e ordem como ele. Se a energia do caos o levava ao extremo com suas ambições nos negócios, a ordem pacífica o tornava uma presença mais do que desejada dentro de casa.  Era daí que conseguia dar sua atenção matutina à Sofia, que ouvia com frequência de seu pai que precisava ser compreensiva com o momento do marido.

___Filha, o Dosto pode ser gigante dentro daquela empresa. Isso é para o futuro de vocês, seja compreensiva___

Dosto chegava em casa todas as noites por volta das três ou quatro da manhã. Tomava um banho acelerado e, prestes a ir para a cama, engolia o que precisava engolir para que o caos fosse interrompido e dormisse de imediato. Ele não se preocupava em deixar qualquer evidência da noite anterior, afinal, Sofia havia acompanhado os sacrifícios que a mãe havia feito para que a família chegasse onde chegou e estava disposta a cumprir seu papel, mas de um jeito ainda mais entregue e apaixonado.

Ela iniciava o ritual de exploração amorosa pouco depois das sete da manhã, quando o alarme do seu celular tocava: começava com beijos no pescoço, orelhas, peito e, se o marido resistisse, partia sem temor para lugares menos resistíveis. Era o tempo de Dosto engolir o que precisava ser engolido para colocar a ordem no controle, e os dois avançassem para fazer mais uma das ótimas coisas que faziam juntos.  

Foram nessas aventuras matutinas que Sofia engravidou pela primeira vez. O resultado do teste de gravidez foi revelado no mesmo dia que Ferro, agora presidente do banco, anunciava a promoção de Dosto como CIO e de Ana como Superintendente de Inovação. 

Enquanto o anúncio ecoava pelos cantos da empresa, Dosto chamou Ana para uma conversa onde agradeceu a parceria que tiveram até ali, reiterou que havia cumprido o prometido, comunicou que seria pai e que qualquer relação além da profissional que houvesse entre os dois precisaria ser encerrada naquele momento. Ana aceitou sem muito alarde, mas não resistiu em dizer que, na verdade, o mérito daquela promoção era todo dela e que inclusive, falando agora com ar extremamente debochado, ela o havia o ajudado a ser promovido.

___É bom te ver feliz assim, mas deixa eu te falar uma coisa: Há quatros meses você afirmou que eu estava assumindo essa bosta de cargo por ser genro do Ferro, não é verdade? Pois bem, penso que não seria nada mais que justo nesse momento eu afirmar que você, Srta. Ana Becker, só está assumindo essa mesma bosta de cargo porque até ontem era a porra da minha amante, não seria? Precisou disso pra ser promovida, muitos devem estar dizendo___

___Filho de uma puta!___

___Negativo, não sou seu filho, agora saia daqui antes que mais pessoas comecem a olhar para nós___

Nunca mais se encontraram como amantes e nem protagonizaram noites de criatividade e inovação juntos, mesmo assim,  continuaram a colaborar profissionalmente com ótimos resultados e sem nenhuma crise de relacionamento. Tinham em comum, dentre outras coisas, o pragmatismo e a ambição, e isso contava muito para suas atitudes no cotidiano. 

Além dos assuntos profissionais, Ana apenas procurava por ele quando precisava de sua rede de contatos para conseguir receitas de estimulantes, inibidores, e afins. Ao que parecia, era o mais forte daquela relação que havia sobrado pra ela - isso e uma cópia cheia de marcações de “O Nascimento da Tragédia” de Nietzsche. A essa altura ela já tinha começado a sentir alguns efeitos colaterais dessa rotina, mas também estava aprendendo a equilibrar ordem e caos, e isso devia a Dosto.

Ao longo dos cinco anos que esteve como CIO, Dosto concretizou alguns grandes projetos e fez a produtividade da área virar referência no mercado. Assumiu uma posição no comitê executivo do banco, fechou ótimas parcerias com empresas internacionais, se tornou um palestrante e embaixador da marca fora do país onde levava com discurso empolgante e apaixonado o caso de sucesso de modernização tecnológica do banco. Havia palestrado em diversos congressos nacionais e internacionais e ter um artigo sobre produtividade publicado na Harvard Business Review, que havia citado que "XXXXXXXXXXX"

Agora fora do banco, sua rotina incluía, além das constantes viagens internacionais como sócio de uma importante consultoria internacional, sair para correr logo ao amanhecer e depois ir para academia. Se antes já ostentava uma boa aparência, agora isso incluía incontáveis músculos que desenhavam suas panturrilhas, coxas, abdômen, peitoral, ombros e costas. 

Os rituais com Sofia continuavam a ser executados com disciplina e frequência, mas agora não mais pelas manhãs já que, quando não estava viajando, chegava em casa por volta das sete da noite e, após cumprir a rotina de pai de dois filhos, escapava com a esposa para o quarto. 

___Com licença. O sr. já teve a chance de consultar o nosso cardápio com as opções para o jantar?____

___Sim, sim, Alice. Obrigado por perguntar. De entrada eu quero este ceviche de portobello, que aliás parece fantástico. Como prato principal, vejamos… ah, certamente eu vou no Filet Mignon ao molho de vinho tinto. Carne mal passada, se possível.____

___Certo. Imagino que o senhor saiba que o nosso mal passado é com a carne bem vermelha por dentro, correto?___

___Sim, claro. Aliás, é o ponto correto para os verdadeiros amantes de carne. E eu sou um dos maiores amantes de carne desse mundo.____

Ele proferiu esta última frase percorrendo com o olhar cada pedaço do corpo de Alice onde houvesse qualquer ostentação carnívora, e o fez com a mesma discrição que Hannibal Lecter faria. Ela ensaiou ignorar os olhares e a indiscrição de Dosto mas falhou dramaticamente ao esboçar um sorriso enquanto perguntava o que ele desejaria para sobremesa afirmando que teria que se contentar entre frutas, pudim de tapioca ou torta de chocolate belga, já que não havia nenhuma sobremesa com carne.

___Que pena, que pena. Sendo assim, vou ficar com as frutas___

___Certo. E para acompanhar o jantar, alguma bebida?___

___ Uma taça desse Catena Zapata Malbec, por favor.___

___Claro, volto num instante Sr. Dosto___

Enquanto se organizava na poltrona para aguardar o jantar, ele revisou cuidadosamente a agenda que teria ao longo dos próximos sete dias entre Londres e Davos. Na capital inglesa, onde passaria os três primeiros dias, ele conduziria uma palestra no principal fórum executivo de tecnologia para a área financeira, e participaria de diversas reuniões com algumas empresas onde já possuía negócios em andamento e outras com as quais pretendia desenvolve-los. Era um território que ele conhecia bem e que estava completamente preparado para brilhar mais uma vez. Davos, no entanto, era um capítulo especial naquela viagem, definitivamente uma aventura perigosa. Era a primeira vez que havia conseguido ser convidado para palestrar no Fórum Econômico Mundial e, ali, tudo seria novo para ele: território, audiência, propósito, enfim, tudo. Fazer o que sempre fez no mundo corporativo em uma conferência dedicada a salvar o mundo era, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios para sua habilidade persuasiva até agora — e a ironia mais escancarada que já protagonizou.

Após os cinco de anos de ouro que passou no banco, e a contragosto de seu sogro e de boa parte do comitê executivo, Dosto decidiu aceitar o convite para se tornar sócio da empresa de consultoria. O sucesso do seu trabalho no banco havia ressoado mundo a fora e, de fato, // falando sobre performance de liderança - de fato ele havia se tornado uma referência nesse tópico, e até mesmo um livro estava escrevendo. 

// A sede da empresa de consultoria ficava em Nova York, e foi em uma dessas idas e vindas para lá que conheceu Britney, que seria seu sétimo caso extra-conjugal.

"Você conhece Nietzsche, certo? Ele entendeu a essência da vida melhor do que qualquer outro. Não é sobre escolher entre ordem ou caos, mas sobre abraçar os dois. Apolo e Dioniso... a razão e o instinto. A harmonia da vida está na tensão entre essas forças. É isso que eu faço."

(Ele faz uma pausa, acende um cigarro ou toma um gole de algo, reforçando a confiança e o controle que acredita ter.)

"Olha, todos vivem presos a uma ilusão de equilíbrio apolíneo: uma casa arrumada, uma família sorridente, um trabalho respeitável. É lindo, eu admito. Mas sabe o que Nietzsche dizia? Que a vida verdadeira acontece no risco, no excesso, no caos. É o dionisíaco que traz a paixão, o êxtase, a vitalidade. Sem Dioniso, somos apenas robôs seguindo ordens, presos em uma existência entediante e previsível."

(Ele olha diretamente para a pessoa, como se estivesse revelando uma grande verdade.)

"Eu escolhi viver diferente. Não rejeito a ordem, veja bem. Minha família é minha âncora, meu Apolo. É onde encontro estabilidade, beleza, um senso de propósito. Mas eu também não ignoro Dioniso. Ele me lembra que a vida é mais do que planilhas, horários ou jantares de domingo. Dioniso me dá a energia, a liberdade, o fogo que eu preciso para criar, conquistar e sentir."

(Ele gesticula com intensidade, começando a parecer mais empolgado com sua própria fala.)

"As pessoas me julgam. Dizem: 'Você trabalha demais, você vive demais, você arrisca demais.' E sabe o que eu digo? Eu digo que elas não entendem. Nietzsche entenderia. Ele sabia que viver plenamente exige caminhar na borda do precipício, testar os limites, beber do caos sem se afogar nele. É isso que eu faço. Uso o que for necessário para equilibrar os dois mundos: o racional e o instintivo, o familiar e o selvagem. É o único jeito de realmente existir."

(Ele dá um leve sorriso, como se tivesse acabado de provar seu ponto, e conclui com algo grandioso.)

"A tragédia das pessoas comuns é que elas escolhem um lado: ou vivem na rigidez de Apolo ou no descontrole de Dioniso. Mas eu... eu sou ambos. Sou humano demais para negar minhas sombras e forte o suficiente para moldá-las em luz. Nietzsche teria orgulho."


(…Britney tem contato ou é do mundo farmacêutico, médico…)

{ Uma rede para influenciar a crescente de diagnóstico de problemas mentais }

{ curto prazo - se organizações focam no curto prazo isso ajuda }